A Surviving Sepsis 2026 tirou o qSOFA da triagem
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A Surviving Sepsis Campaign 2026 substituiu o qSOFA na triagem e transformou a "primeira hora" do antibiótico em escala por probabilidade.
Você decorou o qSOFA. Frequência respiratória, pressão, nível de consciência. Dois de três, pensa em sepse.
A Surviving Sepsis Campaign 2026, publicada em 23/03/2026, colocou o qSOFA abaixo de NEWS, NEWS2, MEWS e até do velho SIRS como ferramenta única de triagem.
Recomendação forte, certeza moderada.
Não é uma nuance acadêmica. É a ferramenta que está colada na parede da sua sala de triagem.
A "primeira hora" virou quatro cenários
Essa é a mudança estrutural do documento. Em 2021 o prazo era um número. Agora depende de quanto você acredita no diagnóstico.
| Cenário | Recomendação | Força |
|---|---|---|
| Choque séptico | Imediato, idealmente em até 1 h do reconhecimento | Forte |
| Sepse provável ou definida, sem choque | Imediato, idealmente em até 1 h | Forte |
| Sepse possível, sem choque | Em até 3 h da primeira suspeita | Condicional |
| Baixa probabilidade de infecção, sem choque | Adiar, com reavaliação próxima | — |
Leia a última linha de novo. A diretriz agora autoriza não dar antibiótico quando a probabilidade de infecção é baixa e não há choque.
Depois de uma década ensinando "antibiótico na primeira hora, sempre", isso é um giro grande. E é um giro defensável: antibiótico dado no paciente errado não é neutro. Tem resistência, tem C. difficile, tem nefrotoxicidade, tem o diagnóstico verdadeiro passando batido enquanto todo mundo se acalma porque "já cobriu".
O documento reforçou junto a ênfase em descalonamento e cursos curtos, mesmo sem isolamento microbiológico.
Os 30 mL/kg perderam força
O volume continua lá — "at least 30 mL/kg of IV crystalloid in the first 3 hr" — mas agora é condicional, com certeza baixa. Em 2021 era mais firme.
E o texto ganhou uma ressalva explícita: "Consideration should be given to individual patient characteristics and context".
Na prática: aquele paciente cardiopata, dialítico, com congestão, em que você sempre teve desconforto em correr 30 mL/kg — a diretriz agora te dá cobertura para individualizar.
Tipo de fluido: cristaloide balanceado em vez de SF 0,9% (condicional, certeza moderada). Com uma exceção nova: SF 0,9% na sepse com TCE.
Amidos continuam fora. Albumina só em cenário selecionado — grande volume já recebido, ou cirrose.
Vasopressor: comece pela veia periférica
"peripherally to restore MAP rather than delaying initiation until central [access] secured".
Iniciar noradrenalina em acesso periférico em vez de atrasar esperando o central. Condicional, certeza muito baixa — mas está escrito, e resolve uma discussão que acontece em toda sala vermelha do país.
Noradrenalina em primeira linha, sobre dopamina, adrenalina e selepressina. Recomendação forte.
A novidade para o idoso
| Grupo | PAM alvo | Força |
|---|---|---|
| Geral | 65 mmHg | Forte, certeza moderada |
| ≥ 65 anos | 60–65 mmHg | Condicional, certeza baixa |
Uma faixa, não um número. Para o paciente idoso, perseguir 65 fixo pode custar mais vasopressor do que o benefício justifica.
Dois exames que perderam prestígio
Procalcitonina. Para decidir o início do antimicrobiano: "clinical evaluation alone over procalcitonin plus clinical evaluation". Avaliação clínica sozinha é preferida. O exame não agrega nessa decisão.
Lactato. Medir e usar dosagens seriadas continuam recomendados, mas as duas agora são condicionais, com certeza baixa. Perderam força.
O lactato virou um dado a mais, não o eixo da ressuscitação.
O que o documento é, e o que ele não é
São 129 recomendações, 46 tópicos novos, de um painel de 69 membros de 23 países, publicado simultaneamente em Critical Care Medicine e Intensive Care Medicine.
É uma diretriz internacional. Não é norma brasileira.
E aqui está o detalhe que quase ninguém percebeu: não existe nota técnica do ILAS sobre a SSC 2026. A última declaração oficial do ILAS é de maio de 2024, sobre critérios Phoenix em sepse pediátrica. A nota sobre a Surviving Sepsis é a de janeiro de 2022, referente à versão de 2021. A tradução oficial em português disponível também é da 2021.
Nenhum posicionamento da AMIB ou da ABRAMEDE sobre a versão 2026 foi localizado.
Ou seja: o protocolo institucional do seu hospital, se foi montado a partir do material do ILAS, está na versão de 2021. E vai continuar assim por um tempo.
A distância entre a diretriz e a parede da sua sala
É isso que trava na prática. A diretriz saiu em março. O pôster do protocolo de sepse do seu serviço foi impresso em 2022. Entre os dois, existe você, às três da manhã, decidindo.
Você não vai abrir um PDF de 129 recomendações em inglês com o paciente hipotenso.
O Guia da UPA resolve esse intervalo. Sepse, choque, antibiótico empírico por sítio, vasopressor, alvo de PAM. Organizado por queixa, no celular, com o número na forma que você lê em cinco segundos.
O tipo de material que você consulta com uma mão enquanto prescreve com a outra.
Para escolher o antimicrobiano pelo foco, o Antibióticos de Bolso traz o antibiótico por foco na sepse, com dose, via, intervalo e duração.
Perguntas frequentes
O qSOFA foi abandonado na triagem?
Foi colocado abaixo de NEWS, NEWS2, MEWS e do próprio SIRS como ferramenta única de triagem, com recomendação forte e certeza moderada. Não é uma nuance acadêmica: é a ferramenta que costuma estar colada na parede da sala de triagem.
Ainda vale a regra do antibiótico na primeira hora?
Depende do cenário. No choque séptico e na sepse provável ou definida sem choque, imediato, idealmente em até 1 hora — recomendação forte. Na sepse possível sem choque, em até 3 horas, de forma condicional. E na baixa probabilidade de infecção sem choque, a diretriz autoriza adiar, com reavaliação próxima.
Fontes
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