Baixar a pressão depois de recanalizar virou Classe 3. Prejudicial.
Resposta rápida
A diretriz de AVC isquêmico de 2026 equiparou tenecteplase à alteplase e classificou como prejudicial baixar a PAS abaixo de 140 após reperfusão.
O paciente trombolisou, a artéria abriu, a angiografia mostra mTICI 2b. Você olha o monitor: PAS 165.
O reflexo é baixar. Artéria aberta, cérebro reperfundido, menos pressão parece melhor.
A diretriz da AHA/ASA publicada em 26/01/2026 na Stroke diz o contrário, e diz com força de recomendação negativa:
"intensive systolic BP lowering to < 140 mm Hg is not recommended even in the setting of complete reperfusion"
Classe 3. Prejudicial. Não é "evidência insuficiente", não é "considerar com cautela". É a categoria que a AHA usa para conduta que causa dano.
Os três alvos de pressão que você precisa saber de cabeça
| Momento | Alvo |
|---|---|
| Pré-reperfusão | < 185/110 mmHg |
| 24 h pós-trombólise ou trombectomia | < 180/105 mmHg |
| Após recanalização bem-sucedida (mTICI 2b–3) | Não baixar PAS para < 140 — Classe 3, prejudicial |
O erro mora no terceiro. Os dois primeiros todo mundo sabe. O terceiro é contraintuitivo, e é o que aparece depois que o caso já deu certo, quando a atenção baixa.
Tenecteplase deixou de ser alternativa
Essa é a mudança que muda logística de serviço.
| Trombolítico | Dose | Máximo | Classe |
|---|---|---|---|
| Alteplase | 0,9 mg/kg | 90 mg | I, Nível A |
| Tenecteplase | 0,25 mg/kg | 25 mg | I, Nível A |
| TNK 0,4 mg/kg | Não recomendada — mais hemorragia sem ganho funcional | — | — |
Mesma classe, mesmo nível de evidência, na janela de 4,5 horas. A tenecteplase é bólus único. A alteplase é bólus mais infusão de uma hora.
Para quem transfere paciente, a diferença é grande: bólus único é muito mais fácil de fazer antes de uma transferência do que uma bomba de infusão rodando durante o transporte.
Cuidado com o entusiasmo, porém. No Brasil, a tenecteplase não foi incorporada para AVC pela CONITEC até setembro de 2026. Fora do SAMU, o uso no SUS depende de protocolo de pesquisa ou de recurso estadual. A diretriz é internacional e orienta; ela não cria acesso.
As janelas abriram
Duas situações que antes eram "paciente não elegível" e hoje são Classe 2a, Nível B:
AVC de início desconhecido ou wake-up stroke, com déficit reconhecido há menos de 4,5 h, usando RM com mismatch FLAIR/difusão.
4,5 a 9 horas do last seen well, com imagem de perfusão — TC ou RM — demonstrando penumbra.
Na trombectomia, também esticou: oclusão de basilar até 24 horas (NIHSS ≥ 10, recomendação forte, PC-ASPECTS ≥ 6), large core com ASPECTS 0–5 ou 3–5, e casos selecionados de M2.
O paciente que você mandava para casa por estar fora de janela, hoje talvez não esteja.
O que saiu da recomendação
Adjuvante antitrombótico durante ou imediatamente após a trombólise: "are not recommended to enhance the outcomes from thrombolytic therapy".
Isso inclui inibidores de GP IIb/IIIa. Tirofibana está fora.
E AAS muito precoce, até 90 minutos pós-trombólise, não melhora desfecho e aumenta sangramento.
Do outro lado, a reintrodução precoce de DOAC no AVC cardioembólico subiu para Classe 2a, Nível A, com base no ELAN, com o timing definido pela extensão do infarto. A espera de 14 dias que virou dogma não se sustenta mais para todo mundo.
A diretriz também trouxe as primeiras recomendações intervencionistas pediátricas de AVC isquêmico.
A notícia brasileira que ninguém ligou com isso
Em 02/09/2026 foi sancionado o projeto de lei que amplia a oferta de trombolíticos para IAM e AVC na rede de urgência e emergência do SUS. Equipes de UPA poderão diagnosticar, avaliar indicação e iniciar trombólise.
No mesmo ato, o Ministério instituiu o Comitê de Acompanhamento da Implementação das Linhas de Cuidado dos Agravos Cerebrovasculares e Cardiovasculares Tempo-Dependentes.
Em 2025 foram 861 aplicações de trombolítico pelo SAMU 192, com 102 USA habilitadas.
⚠ A sanção em 02/09/2026 e o objeto estão confirmados em notícia do Ministério da Saúde. O número da lei, a data de publicação no DOU e o prazo de vigência não estão — confira no DOU antes de citar o número.
Traduzindo: o médico de UPA vai trombolisar. E vai precisar saber os três alvos de pressão de cabeça, porque não vai ter neurologista do lado.
É aqui que a coisa aperta
Trombólise em UPA é uma mudança de patamar de responsabilidade. Janela, critério de exclusão, dose por peso, alvo de PA antes, alvo depois, o que não fazer junto.
Errar o alvo de pressão depois de recanalizar é uma conduta que parece certa e é classificada como prejudicial. Esse é o tipo de erro que só se evita tendo o número na mão no momento da decisão.
O Guia da UPA foi montado para esse momento. Conduta de urgência por queixa, no celular, com a dose e o alvo escritos de forma direta. AVC, IAM, sepse, anafilaxia, crise hipertensiva, parada.
Não é material de estudo para o fim de semana. É o que você abre com o paciente na maca.
Fontes
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