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Paciente em leito hospitalar recebendo oxigênio suplementar por máscara

O GINA 2026 diz para você parar de dar oxigênio na crise de asma

Equipe Médicos do Futuro Redação clínica Publicado em · atualizado em · 4 min de leitura

Resposta rápida

O GINA 2026 mudou o manejo da crise de asma: oxigênio só abaixo de 92% e SABA em dose menor. O que isso muda no seu plantão.

Você chega na sala de emergência, o paciente está chiando, você pede oxigênio. Reflexo. Todo mundo faz.

O GINA 2026 escreveu o contrário, com essas palavras: "supplemental oxygen not recommended unless saturation is below 92%".

Oxigênio suplementar não é recomendado a menos que a saturação esteja abaixo de 92%. E se você for ofertar, o alvo é 92 a 95% — não é encher o paciente de O₂ até dar 99%.

A atualização saiu em maio de 2026, no Strategy Report, com o Summary Guide vindo em julho. O manejo da exacerbação foi um dos focos principais do ano: ganhou quatro fluxogramas novos e uma classificação padronizada de gravidade em leve, moderada, grave e ameaçadora à vida.

Se você aprendeu asma aguda em 2019, boa parte do que você faz no automático mudou.

A segunda mudança é mais desconfortável que a primeira

O GINA reduziu a dose recomendada de SABA. Texto literal: "Recommended doses of short-acting beta2-agonist (SABA) are more conservative than in the past".

O motivo declarado não é economia. É sobretratamento e risco de acidose lática.

A orientação prática que veio junto: "Give by spacer 1 puff at a time". Um jato por vez, com espaçador, reavaliando a resposta antes de repetir. Não é a sequência de oito jatos seguidos que virou hábito em muita sala de emergência.

E tem um detalhe técnico que parece bobo e não é: "Shake the salbutamol (albuterol) inhaler immediately before each actuation". Agitar o inalador antes de cada acionamento. Sem isso, a dose entregue pode sair muito acima do esperado.

⚠ O número exato de jatos e a dose nebulizada estão nos Box 9-4 e 9-6 do relatório completo. Não vou estimar aqui — pegue as tabelas no documento original antes de protocolar no seu serviço.

O que o GINA 2026 fechou no manejo agudo

ItemGINA 2026
OxigênioNão recomendado a menos que SpO₂ < 92%. Alvo 92–95% em adultos, adolescentes e 6–11 anos
Oxigênio em ≤ 5 anos com crise graveAlvo ≥ 92%
SABADose mais conservadora. 1 jato por vez, com espaçador, reavaliando antes de repetir
ICS-formoterolAdicionado como alternativa ao SABA inalado na exacerbação leve — atenção primária e emergência
Corticoide, adultos"prednisolone 40–50 mg each morning for 5–7 days"
Corticoide, crianças"prednisolone 1–2 mg/kg/day up to 40 mg, each morning for 3–5 days"
Limite do relieverProcurar atendimento se passar de 12 inalações de ICS-formoterol em 24 h (dose entregue de formoterol 54 mcg; dose medida 72 mcg)
EspirometriaRecomendada com força na apresentação, exceto em pré-escolares e quadros ameaçadores à vida

Repare no destaque novo que o documento carimbou: "OCS stewardship is a priority". Corticoide oral virou item de controle, como antibiótico. A conta de quantos ciclos por ano aquele paciente já tomou passou a importar.

A linha que pode te salvar de um óbito

Essa entrou em cada fluxograma de exacerbação, e é a que eu acho mais importante do pacote:

Se houver sinais de anafilaxia junto com a asma, adrenalina primeiro, broncodilatador depois.

"Give epinephrine (adrenaline) first, then give bronchodilators."

Parece óbvio escrito assim. Na prática, o paciente chega chiando, você vê broncoespasmo, trata broncoespasmo. O quadro anafilático que estava por baixo continua evoluindo enquanto você nebuliza.

E aqui vem a parte brasileira do problema: a conduta padrão no Brasil ainda é ampola e seringa, intramuscular, porque não existe autoinjetor de adrenalina registrado no país. Em 08/11/2025 a Anvisa declarou que "nunca foi registrado um processo de pedido de reconhecimento do produto". A adrenalina intranasal aprovada pelo FDA desde 2024 também não tem registro aqui.

Dose que não mudou: 0,01 mg/kg IM na face anterolateral da coxa, máximo de 0,3 mg em pré-púberes e 0,5 mg em adolescentes e adultos, repetível 1 a 2 vezes em intervalos de 5 a 15 minutos.

Casos de anafilaxia notificados no Brasil em 2024: 1.143. Alta de 107% em relação a 2015.

O que isso significa no seu plantão

Três coisas que você faz hoje e que a diretriz de 2026 não sustenta mais:

Ofertar oxigênio para todo paciente em crise, independente da saturação. Agora tem corte: 92%.

Sequência longa de SABA sem reavaliar entre os jatos. Virou um jato por vez, com espaçador.

Tratar broncoespasmo em quadro que tem cara de anafilaxia. Adrenalina vem antes.

Nenhuma dessas é uma mudança de detalhe. São decisões que você toma nos primeiros cinco minutos de atendimento, antes de ter tempo de consultar nada.

E é exatamente aí que mora o problema

Você não vai abrir o Strategy Report de 300 páginas do GINA com o paciente dessaturando na sua frente.

Ninguém faz isso. O que acontece de verdade é que você usa o que está na sua cabeça — e o que está na sua cabeça é o que você aprendeu na residência, que pode ser de cinco anos atrás.

O Guia da UPA existe por causa disso. É a conduta de urgência organizada por queixa, no formato que abre no celular em dez segundos, com a dose escrita do jeito que você precisa ler quando não tem tempo de interpretar.

Crise de asma, anafilaxia, sepse, dor torácica, AVC. As dez queixas que enchem a sua sala, cada uma com a conduta atualizada e a prescrição pronta.

Não é um livro para estudar. É para consultar no meio do plantão.

Fontes

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