Em sepse pediátrica sem UTI, a diretriz de 2026 recomenda CONTRA o bolus
Resposta rápida
A Surviving Sepsis pediátrica 2026 condicionou o volume à disponibilidade de UTI e recomenda contra bolus na sepse sem hipotensão. O que fazer no interior.
Criança de 3 anos, febril, taquicárdica, tempo de enchimento capilar lento, pressão normal. Você está numa UPA sem UTI pediátrica e a vaga mais próxima fica a 180 km.
O que você faz? Bolus de 20 mL/kg. Todo mundo faz.
A Surviving Sepsis Campaign pediátrica 2026, publicada em 23/03/2026, diz o contrário para esse caso exato:
"we recommend against using fluid bolus therapy"
Sepse sem hipotensão e sem UTI disponível: recomenda-se contra o bolus.
O volume passou a depender de onde você está
Essa é a mudança de arquitetura da diretriz, e é a primeira vez que uma recomendação de sepse pediátrica leva em conta a realidade logística do lugar onde a criança está sendo atendida.
| Cenário | Volume |
|---|---|
| Choque séptico com UTI disponível | Até 40–60 mL/kg em bolus (10–20 mL/kg por bolus) na primeira hora |
| Choque séptico com hipotensão, sem UTI disponível | Até 40 mL/kg (10–20 mL/kg por bolus) |
| Sepse sem hipotensão e sem UTI disponível | Contra o bolus |
A lógica é direta: bolus de volume em criança séptica produz uma fração de pacientes que evolui para sobrecarga e precisa de ventilação mecânica. Se você tem UTI, você absorve essa complicação. Se você não tem, você acabou de criar um problema que não consegue tratar.
Para quem trabalha em serviço sem retaguarda pediátrica, isso é a recomendação mais importante do documento. E é uma permissão que muita gente precisava ter por escrito.
Tipo de fluido: "We suggest resuscitation with balanced or buffered crystalloid solutions over 0.9% saline". Cristaloide balanceado ou tamponado em vez de soro fisiológico.
O antibiótico seguiu a mesma lógica de probabilidade do adulto
| Cenário | Prazo |
|---|---|
| Choque séptico | O mais precoce possível, idealmente em até 1 hora do reconhecimento |
| Sepse sem choque | Idealmente em até 3 horas, após avaliação apropriada |
A recomendação de vasopressor foi retirada
Em 2020 havia orientação de preferência. Agora:
"insufficient evidence to issue a recommendation on the preferred use of epinephrine or norepinephrine"
Evidência insuficiente para recomendar adrenalina ou noradrenalina preferencialmente.
Isso devolve a escolha para o contexto clínico e para o que o seu serviço tem na geladeira — o que, sejamos honestos, já era como a decisão era tomada na prática.
Corticoide: sugere-se contra hidrocortisona IV no paciente hemodinamicamente estável.
Lactato: mantida a medição como parte da avaliação inicial.
O tamanho da incerteza, que vale dizer em voz alta
O documento tem 61 declarações. Desse total:
- 5 recomendações fortes
- 24 condicionais
- 10 de boa prática
- 22 questões PICO sem recomendação — o painel olhou, não achou evidência suficiente, e disse isso
Vinte novas, treze atualizadas, seis revisadas sem mudança.
E o dado que mais importa para calibrar expectativa: apenas 3 recomendações têm evidência de certeza alta ou moderada.
Sepse pediátrica é uma área onde a maior parte do que fazemos é extrapolação e consenso. Uma diretriz que admite isso explicitamente é mais útil do que uma que finge segurança.
Diretriz internacional, não norma brasileira
A publicação foi simultânea em Pediatric Critical Care Medicine e Intensive Care Medicine, por SCCM e ESICM.
O ILAS não publicou nota sobre a versão 2026 — a última declaração oficial da entidade é de 09/05/2024, sobre os critérios Phoenix.
Se o protocolo de sepse pediátrica do seu serviço saiu de material brasileiro, ele está na versão anterior.
E não foi só a sepse
Doze meses de mudança em pediatria, cada uma com data e nenhuma delas chegando junto:
| Publicado | O que mudou |
|---|---|
| 07/03/2026 | Nirsevimabe no SUS — 50 mg se < 5 kg, 100 mg se ≥ 5 kg, dose única IM |
| 23/03/2026 | Sepse pediátrica — volume por disponibilidade de UTI |
| 17/03/2026 | Ferro — profilaxia saiu do cálculo por peso e virou dose fixa |
| Maio/2026 | GINA 2026 — PRAM de 2 a 17 anos, ICS-formoterol na crise leve |
| 08/06/2026 | Vacina dengue do Butantan suspensa |
| 18/06/2026 | 2º reforço da pólio aos 4 anos — esquema passou a 5 doses |
| Junho/2026 | VPC20 na rotina — esquema misto transitório |
| 28/07/2026 | Calendário SBP 2026/2027 |
| 24/08/2026 | Nota de alerta da SBP sobre canetas emagrecedoras |
Nove mudanças. Em nove datas diferentes. Em nove sites diferentes.
Ninguém tem tempo para isso
Você atende trinta crianças num turno. Não vai acompanhar publicação de nota técnica do PNI, documento científico da SBP e diretriz internacional ao mesmo tempo.
O Pediatria de Bolso 2026 existe para fechar essa lacuna. São 159 páginas de prescrição pediátrica organizada por classe de medicamento, por patologia e por pronto atendimento — no formato que abre no celular e que você consulta com a criança na maca.
Dose em mg/kg, dose máxima, idade mínima. Escrito para consultar, não para estudar.
Para não refazer a conta no atendimento, o Doses por Peso de Bolso traz a dose por quilo já convertida em mL e reúne em tabela o volume de expansão no choque e as drogas da PCR por peso.
Perguntas frequentes
Criança séptica sem hipotensão, em UPA sem UTI pediátrica: faço bolus?
A diretriz recomenda contra a terapia com bolus de fluido nesse cenário específico — sepse sem hipotensão e sem UTI disponível.
Por que a disponibilidade de UTI entra numa recomendação clínica?
Porque o bolus de volume em criança séptica produz uma fração de pacientes que evolui para sobrecarga e precisa de ventilação mecânica. Onde há UTI, essa complicação é absorvida; onde não há, cria-se um problema sem retaguarda para resolvê-lo.
Fontes
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