A SBP mudou o corte da febre para 37,5 °C e quase ninguém percebeu
Resposta rápida
A SBP redefiniu febre como 37,5 °C axilar e tirou de recomendação a alternância de antitérmicos. As doses de paracetamol, dipirona e ibuprofeno.
Pergunta rápida, sem consultar nada: a partir de quantos graus, na axila, é febre?
Se você respondeu 37,8 °C, você está na versão anterior.
O Documento Científico nº 206 da Sociedade Brasileira de Pediatria trouxe, com essas palavras:
"febre, quando medida por temperatura axilar, é geralmente definida como uma temperatura igual ou superior a 37,5 °C (correspondendo a 38 °C quando medida por temperatura oral ou retal)"
Medida por 3 minutos.
O corte caiu de 37,8 para 37,5. Meio grau. Que na prática significa um volume considerável de crianças que antes você classificava como subfebril e agora são, por definição, febris.
As doses, exatamente como o documento traz
| Fármaco | A partir de | Dose / intervalo | Dose máxima diária |
|---|---|---|---|
| Paracetamol | Neonatos, ≥ 3 kg | 10–15 mg/kg a cada 4–6 h | 50–75 mg/kg/dia |
| Dipirona | 3 meses e ≥ 5 kg | 10–16 mg/kg a cada 6–8 h | 40–64 mg/kg/dia |
| Ibuprofeno | 6 meses e ≥ 5 kg | 5–10 mg/kg a cada 6–8 h | 40 mg/kg/dia |
Repare em duas coisas que costumam sair erradas na receita.
Dipirona tem idade mínima de 3 meses E peso mínimo de 5 kg. As duas condições, não uma. Um lactente de 4 meses com 4,8 kg não entra.
Ibuprofeno começa aos 6 meses, não aos 3. E a dose máxima diária é 40 mg/kg/dia — o teto mais estreito dos três em termos relativos.
Quatro condutas que saíram de recomendação
Essa é a parte que pega o consultório, porque são coisas que a gente orienta no automático e que muitas mães fazem há duas gerações.
Alternância de antitérmicos. "Uso alternado ou associado de antitérmicos não é recomendado, pois podem confundir os familiares."
O esquema "paracetamol agora, ibuprofeno em 3 horas" está fora. E o motivo declarado não é falta de eficácia. É erro de administração — a família perde a conta e dobra a dose de um dos dois.
Métodos físicos. "Os métodos físicos não são recomendados, a não ser nos casos de hipertermia."
Banho morno, compressa, pano na testa. Fora, exceto em hipertermia — que é um quadro diferente de febre.
AAS. "O uso do Ácido Acetil Salicílico não é recomendado pelo risco de Síndrome de Reye." Esse já era conhecido, mas segue aparecendo em prescrição.
Antitérmico profilático. "Não se recomenda o uso profilático rotineiro de antitérmicos" — inclusive o pré-vacinal.
Aquela orientação de dar paracetamol antes da vacina para prevenir febre saiu de recomendação.
A mudança conceitual, que é maior que o número
O documento reposicionou o gatilho da prescrição:
Antitérmico indicado por desconforto evidente, não por valor de temperatura.
Criança com 38,5 °C brincando, hidratada, ativa, não precisa de antitérmico. Criança com 37,8 °C prostrada, gemente, recusando líquido, precisa.
Isso é o oposto de como a maioria das famílias — e uma parte dos plantonistas — decide. O termômetro para de ser o critério e volta a ser um dado.
Também vale dizer o que a febre é: resposta imune adaptativa. Baixar o número não trata a doença nem encurta o quadro. Trata o desconforto.
Atenção à data, porque isso importa
O documento é de 15/05/2025. Não é de 2026.
A repercussão grande na imprensa foi em outubro de 2025, e muita gente leu como "notícia nova" na época — mas se referia a esse mesmo documento de maio. Até setembro de 2026, não houve documento novo da SBP sobre febre.
Ou seja: está valendo há mais de um ano. E é justamente por isso que ainda pega tanta gente de surpresa — mudança que não vem com campanha simplesmente não chega.
E a dipirona? Não foi proibida
Isso circulou muito em 2026 e é falso.
Não houve restrição nova nem alerta de segurança de classe da Anvisa. O que houve foi recolhimento de um lote específico: a RE nº 1.380/2026, de 08/04/2026, suspendeu e recolheu o lote 24112378 de dipirona monoidratada 500 mg/mL da Hypofarma, por "desvio de qualidade por presença de material particulado (não dissolvido) estranho à formulação".
Evento de qualidade de um lote. Não é segurança da molécula.
As doses seguem as da tabela acima.
O problema não é essa tabela. É que existem dezenas dela.
Você provavelmente vai fechar essa página lembrando do 37,5 °C. Ótimo.
Mas na próxima consulta vai aparecer uma otite, e você vai precisar da dose de amoxicilina. Depois uma ITU. Depois uma criança de 4,8 kg em que você vai ter que lembrar que dipirona não entra. Depois o esquema de ferro profilático, que a SBP mudou em março de 2026 e virou dose fixa.
Cada uma dessas está num documento diferente, em um site diferente, algumas atrás de login de sócio.
O Pediatria de Bolso 2026 é a alternativa: 159 páginas com as prescrições pediátricas organizadas por classe de medicamento, por patologia e por pronto atendimento. Dose em mg/kg, dose máxima, idade mínima, no formato que abre no celular durante a consulta.
A regra que segui montando ele é simples: nenhuma dose pode estar errada, porque tem médico prescrevendo a partir dela.
Fontes
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