Protocolo de morte encefálica: pré-requisitos, tempos, teste de apneia e sedativos
Resposta rápida
O protocolo de morte encefálica só abre com lesão de causa conhecida e irreversível, sem fatores tratáveis, temperatura > 35ºC, saturação > 94% e PAs > 100 mmHg ou PAM > 65 mmHg. Exige observação mínima de 6 horas (24 horas na encefalopatia hipóxico-isquêmica), dois exames clínicos, teste de apneia e um exame complementar.
Abrir um protocolo de morte encefálica exige checar pré-requisitos, respeitar tempos mínimos, fazer dois exames clínicos, um teste de apneia e um exame complementar. Cada etapa tem números que precisam estar certos, e um sedativo esquecido na bomba pode falsear tudo.
O guia de terapia intensiva da plataforma organiza o protocolo em sequência. Segundo o guia, a morte encefálica é a perda irreversível e completa das funções cerebrais, de causa identificável e compatível com o quadro, e, uma vez constatada, o paciente está legalmente morto.
Pré-requisitos do protocolo de morte encefálica
São obrigatórios para abrir o protocolo:
- Lesão encefálica de causa conhecida, irreversível e capaz de causar a morte encefálica.
- Ausência de fatores tratáveis, como sedação, distúrbios metabólicos e intoxicações.
- Temperatura corporal > 35ºC (esofagiana, vesical ou retal). Sem temperatura central disponível, a axilar > 35ºC vale para este critério.
- Saturação de oxigênio > 94%.
- PAs > 100 mmHg ou PAM > 65 mmHg.
Tempos mínimos: observação e intervalo entre exames
Observação clínica antes de iniciar: no mínimo 6 horas nas causas gerais e no mínimo 24 horas se a causa for encefalopatia hipóxico-isquêmica.
| Idade | Intervalo mínimo entre as avaliações clínicas |
|---|---|
| Acima de 2 anos | 1 hora |
| Entre 2 meses e 2 anos | 12 horas |
| Entre 7 dias e 2 meses | 24 horas |
Quem faz os exames clínicos
São necessários dois exames clínicos, por dois médicos diferentes, capacitados para confirmar o coma não perceptivo (Glasgow de 3) e a ausência de função do tronco encefálico. Nenhum dos dois pode fazer parte da equipe de transplante. O guia cita neurologista, neurocirurgião, emergencista e intensivista.
Reflexos do tronco encefálico
- Pupilar (fotomotor): luz direto na pupila; ausência de miose no lado estimulado e no contralateral.
- Córneo-palpebral: ausência de piscar ao tocar a córnea com algodão embebido em soro fisiológico ou água destilada.
- Oculocefálico (olhos de boneca): movimento brusco da cabeça para os lados; na ausência do reflexo, os olhos acompanham a cabeça. Contraindicado se houver suspeita de traumatismo raquimedular.
- Vestíbulo-ocular (prova calórica): otoscopia antes, para afastar obstrução; instilar 50 mL de salina a 4°C no conduto auditivo externo. Se positiva, há desvio do olhar conjugado para o lado estimulado. Aguardar 5 minutos para testar o outro lado.
- Tosse ou engasgo: estimular traqueia ou hipofaringe com sonda de aspiração pelo tubo ou pela traqueostomia.
Teste de apneia passo a passo
- Ventilar com FiO2 100% por pelo menos 10 minutos, buscando PaO2 > 200 mmHg e PaCO2 entre 35 e 45 mmHg.
- Instalar oxímetro, colher gasometria arterial e desconectar da ventilação mecânica.
- Manter fluxo contínuo de O2: cateter intratraqueal ao nível da carina (6L/min), tubo T (12L/min) ou CPAP (até 12L/min + 10 cmH2O).
- Observar movimentos respiratórios por 10 minutos. Para estimar o tempo de desconexão, prever elevação da PaCO2 de 3 mmHg/min.
- Colher nova gasometria arterial ao final e reconectar a ventilação.
Interpretação: positivo com PaCO2 > 55 mmHg e ausência de movimentos respiratórios; inconclusivo com PaCO2 final abaixo de 55 mmHg sem movimentos; negativo se houver qualquer movimento respiratório, mesmo débil, com qualquer PaCO2.
Quando interromper: hipotensão (PAs < 100 mmHg ou PAM < 65 mmHg), hipoxemia significativa ou arritmia. Colher a gasometria e reconectar o paciente ao ventilador.
Exame complementar
Um exame complementar deve comprovar a ausência de atividade encefálica. O guia cita três opções: Doppler transcraniano (ausência de fluxo sanguíneo encefálico), cintilografia ou SPECT cerebral (ausência de atividade metabólica) e eletroencefalograma (ausência de atividade elétrica).
Sedativos: quanto esperar antes de abrir o protocolo
Com sedativos em infusão contínua, é preciso esperar no mínimo quatro a cinco meias-vidas depois da interrupção, porque eles podem falsear o exame do tronco encefálico.
| Medicação | Meia-vida | Tempo mínimo para iniciar |
|---|---|---|
| Fentanil, midazolam, propofol, dexmedetomidina | 2 horas | 10 horas |
| Cetamina | 2,5 horas | 12 horas e 30 minutos |
| Etomidato | 3 horas | 15 horas |
| Tiopental | 12 horas | 60 horas |
| Rocurônio | 1 hora | 5 horas |
| Atracúrio | 20 minutos | 1 hora e 40 minutos |
| Cisatracúrio | 22 minutos | 1 hora e 50 minutos |
| Succinilcolina | 10 minutos | 50 minutos |
Pré-requisitos cumpridos, tempo de observação respeitado, sedativos eliminados: só então os dois exames clínicos, o teste de apneia e o exame complementar.
Na UTI
O protocolo completo, com o fluxograma dos pré-requisitos e as tabelas de reflexos e de meia-vida dos sedativos, está no guia de terapia intensiva da Plataforma, a assinatura anual com prescrições, fluxogramas, calculadoras e guias clínicos.
Perguntas frequentes
Quanto tempo de observação antes de abrir o protocolo de morte encefálica?
No mínimo 6 horas nas causas gerais. Se a causa for encefalopatia hipóxico-isquêmica, no mínimo 24 horas.
Qual o intervalo entre os dois exames clínicos?
Depende da idade: 1 hora acima de 2 anos, 12 horas entre 2 meses e 2 anos e 24 horas entre 7 dias e 2 meses. Os exames são feitos por dois médicos diferentes, nenhum da equipe de transplante.
Quando o teste de apneia é inconclusivo?
Quando a PaCO2 final fica abaixo de 55 mmHg e não há movimentos respiratórios. Se houver qualquer movimento respiratório, mesmo débil, o teste é negativo, com qualquer PaCO2.
Quanto esperar depois de suspender o midazolam?
O guia orienta esperar quatro a cinco meias-vidas. Para midazolam, com meia-vida de 2 horas, o tempo mínimo é de 10 horas; o mesmo vale para fentanil, propofol e dexmedetomidina.
Fontes
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