Identificar sepse na APS: disfunção orgânica, SIRS e os 30 mL/kg
Resposta rápida
O fluxograma da Anvisa deve ser aplicado a todo paciente com suspeita ou confirmação de infecção. Identifica-se sepse quando há uma disfunção orgânica — hipotensão com PAS abaixo de 90 mmHg, alteração do nível de consciência, saturação abaixo de 90% ou dispneia importante, oligúria — ou pelo menos dois sinais de SIRS. Confirmado, prescreve-se antibiótico conforme o foco provável e inicia-se reposição volêmica com pelo menos 30 mL/kg de cristaloide, idealmente em 30 a 60 minutos.
A sepse não chega rotulada. Chega como uma infecção que parecia simples, numa unidade sem laboratório imediato, e a única coisa que muda o desfecho é o reconhecimento precoce. O guia da Anvisa traz um fluxograma para isso — e define que ele deve ser aplicado para todos os pacientes com suspeita ou confirmação de infecção.
A avaliação inicial tem dois caminhos
Basta um deles, somado à suspeita ou confirmação de infecção.
O paciente apresenta uma disfunção orgânica?
- Hipotensão: PAS < 90 mmHg
- Alteração do nível de consciência
- Saturação < 90%, necessidade de O₂ ou dispneia importante
- Oligúria: diurese < 0,5 mL/kg/h
E, se houver exames laboratoriais disponíveis: creatinina > 2 mg/dL, lactato acima do valor normal, plaquetas < 100.000, INR > 1,5 ou bilirrubinas > 2 mg/dL.
Ou o paciente apresenta pelo menos dois sinais de SIRS?
- Febre — temperatura axilar > 37,8 °C — ou hipotermia, com temperatura central < 35 °C
- Taquicardia: FC > 90 bpm
- Taquipneia: FR > 20 irpm
- Leucocitose > 12.000/mm³ ou leucopenia < 4.000/mm³
Uma disfunção orgânica já basta. Não é preciso somar duas, nem esperar o lactato voltar.
A conduta, em três passos
- Prescrever antibioticoterapia conforme o foco provável.
- Iniciar reposição volêmica precoce em pacientes com hipotensão ou lactato acima de 20 mg/dL: pelo menos 30 mL/kg de cristaloide, infundido o mais rápido possível, idealmente em 30 a 60 minutos.
- Encaminhar para atendimento em UPA ou hospital.
A ressalva que evita o erro oposto
O guia registra que cardiopatas podem necessitar de redução na velocidade de infusão, conforme a presença de disfunção diastólica ou sistólica moderada a grave. Nesses pacientes, o uso de vasopressores para garantir pressão de perfusão adequada eventualmente necessita ser antecipado.
Ou seja: os 30 mL/kg são o piso do protocolo, não uma ordem cega. No cardiopata, a mesma velocidade que ressuscita um paciente congestiona o outro.
Por que isso é assunto de UBS, e não só de pronto-socorro
O fluxograma foi escrito para a atenção primária justamente porque é lá que muitos desses pacientes são vistos primeiro — com uma queixa infecciosa comum e sem exame nenhum disponível. Os critérios de disfunção orgânica da lista são todos de beira de leito: pressão, consciência, saturação, diurese.
O Guia da UBS e o Guia da UPA trazem esses critérios e a sequência da conduta prontos para consultar no atendimento.
Perguntas frequentes
Preciso do lactato para identificar sepse?
Não. O lactato aparece entre os exames laboratoriais "se disponíveis". Os critérios de disfunção orgânica que abrem o fluxograma são clínicos: hipotensão com PAS abaixo de 90 mmHg, alteração do nível de consciência, saturação abaixo de 90% ou dispneia importante, e oligúria com diurese abaixo de 0,5 mL/kg/h.
O volume de 30 mL/kg vale para todo paciente?
É o mínimo previsto para quem tem hipotensão ou lactato acima de 20 mg/dL, idealmente em 30 a 60 minutos. O guia ressalva que cardiopatas podem necessitar de redução na velocidade de infusão conforme disfunção diastólica ou sistólica moderada a grave — e que nesses casos o vasopressor pode precisar ser antecipado.
Fontes
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