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Pessoa com as mãos sobre o abdome, sinalizando desconforto

Gastroenterocolite aguda: quando o antibiótico entra e quando não

Equipe Médicos do Futuro Redação clínica Publicado em · 5 min de leitura

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O guia da Anvisa para a APS é direto: não é necessário antimicrobiano para a maioria dos casos de gastroenterocolite aguda, mesmo quando a etiologia é bacteriana. O antimicrobiano empírico e a coprocultura entram diante de febre acima de 38,5 °C persistente, sinais de hipovolemia ou desidratação, oito ou mais evacuações amolecidas em 24 horas, fezes com sangue, idade igual ou acima de 70 anos, comorbidades graves, doença inflamatória intestinal ou gravidez.

Gastroenterocolite aguda é definida como aumento na frequência e na quantidade das evacuações, ou diminuição da consistência das fezes — tipicamente três ou mais episódios por dia, com duração inferior a 14 dias. A grande maioria dos casos é infecciosa e autolimitada.

O guia da Anvisa coloca a conclusão antes do raciocínio: o diagnóstico é clínico, o principal objetivo do tratamento é prevenir a desidratação ou reidratar adequadamente, e não é necessário antimicrobiano para a maioria dos casos, mesmo que a etiologia seja bacteriana.

O que perguntar na anamnese

A lista do guia é objetiva e serve de roteiro: sangue visível ou muco nas fezes, perda de peso, febre, data de início dos sintomas, náusea e vômitos, dor abdominal intensa, envolvimento neurológico (parestesia, diminuição de força motora, paralisia de nervo craniano), uso recente de antimicrobianos, internação hospitalar nos últimos 3 meses, casos semelhantes no convívio ou domicílio, provável origem hídrica ou alimentar, institucionalização, viagem recente e comorbidades.

Quando iniciar antimicrobiano empírico e pedir coprocultura

Basta um destes:

  • Febre acima de 38,5 °C persistente
  • Sinais e sintomas de hipovolemia ou desidratação
  • Oito ou mais episódios de fezes amolecidas nas 24 horas
  • Fezes com sangue
  • Idade igual ou superior a 70 anos
  • Comorbidades graves — cardiopatias, imunossuprimidos, incluindo infecção por HIV avançada
  • Doença inflamatória intestinal
  • Gravidez

Fora desses critérios: sem indicação de antimicrobiano empírico e sem indicação de coprocultura. A conduta é hidratação oral ou endovenosa, sintomáticos — antieméticos e analgésicos — e dieta conforme a aceitação.

E uma proibição explícita nos dois cenários: evitar antidiarreicos derivados de opioides, como a loperamida.

A contraindicação que inverte a conduta

O guia traz, em nota, o caso em que tratar piora: não usar antimicrobiano se houver suspeita ou diagnóstico de Escherichia coli produtora da toxina Shiga (STEC), em especial o sorotipo O157:H7, pelo maior risco de ocorrência de Síndrome Hemolítico-Urêmica.

É a exceção que transforma "fezes com sangue" — um dos critérios para tratar — em motivo para não tratar, quando a suspeita etiológica é essa.

O esquema empírico

  • Azitromicina — adulto: 500 mg VO 1x/dia por 3 dias. Criança: 10 a 12 mg/kg no primeiro dia, uma vez ao dia, seguidos de 5 a 6 mg/kg/dia por 2 dias.
  • Ciprofloxacino — adulto: 500 mg VO 12/12h por 3 a 5 dias. Criança: 20 mg/kg/dia dividido de 12/12h por 3 a 5 dias.

Quando o agente é conhecido

  • Shigella: ciprofloxacino 500 mg 12/12h ou azitromicina 500 mg 1x/dia, por 3 dias. As complicações incluem megacólon tóxico, prolapso retal, perfuração intestinal, convulsões, encefalopatia e sepse.
  • Salmonella não typhi: 7 a 10 dias — considerar tratamento para casos graves e imunodeprimidos.
  • Campylobacter: azitromicina 500 mg 1x/dia por 3 dias. Tem sido documentado aumento de resistência a quinolonas; pode imitar apendicite, e as complicações incluem síndrome de Guillain-Barré.
  • Giardia: metronidazol 250 mg VO 8/8h ou 15 mg/kg/dia dividido de 8/8h por 5 a 7 dias, ou nitazoxanida 500 mg VO 12/12h por 3 dias.
  • Clostridioides difficile, casos leves a moderados: metronidazol 250 mg VO 6/6h ou 500 mg VO 8/8h, por 10 dias. Raro em crianças; fatores de risco são hospitalização e uso recente de antimicrobianos.

Testes adicionais entram pelo risco: C. difficile quando houve internação ou uso de antimicrobianos nos últimos 3 meses; pesquisa de parasitas quando a duração passa de 14 dias.

Na consulta e no plantão

O Guia da UBS e o Guia da UPA trazem os critérios e as doses na sequência da decisão — tratar ou hidratar e observar.

Perguntas frequentes

Diarreia com sangue sempre indica antibiótico?

Fezes com sangue é um dos critérios para iniciar antimicrobiano empírico e solicitar coprocultura. Mas o guia traz a exceção que inverte a conduta: não usar antimicrobiano na suspeita ou diagnóstico de E. coli produtora da toxina Shiga, em especial o sorotipo O157:H7, pelo maior risco de Síndrome Hemolítico-Urêmica.

Posso prescrever loperamida para reduzir as evacuações?

O guia orienta evitar antidiarreicos derivados de opioides, como a loperamida. A conduta nos casos sem indicação de antimicrobiano é hidratação oral ou endovenosa, antieméticos e analgésicos como sintomáticos, e dieta conforme a aceitação.

Fontes

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