Dislipidemia: o tratamento é baseado no risco, não na meta de LDL
Resposta rápida
O PCDT da Dislipidemia é explícito: o tratamento será baseado no paciente sob risco e não na busca do LDL-C alvo. Entram no protocolo pacientes com risco superior a 10% em 10 anos pelo Escore de Risco de Framingham, com evidência clínica de doença aterosclerótica, com diabete melito na faixa etária e com fator de risco definidos, ou com hiperlipidemia familiar. Iniciada a estatina para prevenção cardiovascular, o protocolo não considera necessária a monitorização do perfil lipídico.
Há uma frase no PCDT da Dislipidemia que reorganiza a consulta inteira, e ela está escrita sem rodeio: "o tratamento será baseado no paciente sob risco e não na busca do LDL-C alvo".
Ou seja, a pergunta não é "quanto está o LDL dele". É "qual o risco dele".
Quem entra no protocolo
Basta um dos critérios:
- Diabete melito em homens com mais de 45 anos e mulheres com mais de 50 anos, com pelo menos um fator de risco cardiovascular maior — tabagismo, hipertensão arterial ou história familiar em parente de primeiro grau de doença arterial coronariana precoce (antes dos 55 anos para homens e dos 65 para mulheres).
- Moderado a alto risco cardiovascular definido pelo Escore de Risco de Framingham, com risco superior a 10% em 10 anos.
- Evidência clínica de doença aterosclerótica: IAM ou revascularização miocárdica prévios; doença coronariana por cineangiocoronariografia; angina com isquemia demonstrada por teste provocativo; isquemia cerebral em exame de imagem; acidente isquêmico transitório com aterosclerose carotídea ou endarterectomia prévia; doença arterial periférica com claudicação intermitente ou revascularização.
- Diagnóstico definitivo de hiperlipidemia familiar.
Dois critérios de exclusão merecem atenção porque são corrigíveis antes de tratar: hipotireoidismo descompensado (TSH acima de 10 mcUI/mL) e gestantes ou mulheres em idade fértil sem contracepção segura.
Como prescrever
As estatinas são usadas por via oral, em dose única diária, preferencialmente à noite, para se obter o efeito máximo. As doses do protocolo:
- Sinvastatina: inicial 20 mg, máxima 80 mg — com a ressalva de que 80 mg por dia se associa a risco aumentado de toxicidade.
- Atorvastatina cálcica: inicial 10 mg, máxima 80 mg — restrita a casos especiais, sendo 10 mg a dose usual.
- Pravastatina sódica: inicial 20 mg, máxima 40 mg.
A dose máxima existe na tabela, mas o protocolo marca as duas de cima como exceção. A dose usual da atorvastatina é 10 mg.
A regra dos fibratos
Quando usados junto de estatinas, os fibratos devem ser tomados em horário afastado — pela manhã — para diminuir o risco de toxicidade. E há uma proibição categórica: a genfibrozila nunca deve ser administrada concomitantemente ao uso de estatinas, pelo risco de rabdomiólise. No protocolo, a genfibrozila entra justamente para quem é intolerante ou refratário às estatinas.
O que monitorar — e o que não
Este é o ponto que mais contraria a prática corrente: iniciado o tratamento com estatinas para prevenção de eventos cardiovasculares, não se faz necessária monitorização de perfil lipídico, uma vez que o tratamento será contínuo.
O que se monitora é outra coisa:
- Função hepática (transaminases) e muscular (CPK): no início do tratamento, após 6 meses, e toda vez que a dose for alterada ou forem associados fármacos que aumentem o risco de toxicidade.
- Triglicerídeos semestrais, quando o objetivo é prevenir pancreatite por hipertrigliceridemia.
- Perfil lipídico anual apenas para quem usa medicamentos que não estatinas — e o protocolo classifica a utilidade prognóstica disso como questionável.
Quando suspender
O tratamento é contínuo. Determinam suspensão: mialgias durante o uso, elevação de CPK 10 vezes acima do valor normal, aumento de transaminases 3 vezes acima do valor normal ou o surgimento de contraindicações.
Na consulta
O Guia da UBS e o Guia de Condutas UBS trazem o critério de risco, a dose inicial e o calendário de exames juntos — para a decisão sair pronta do atendimento.
Perguntas frequentes
Preciso repetir o perfil lipídico depois de iniciar a estatina?
Para prevenção de eventos cardiovasculares, o protocolo diz que não é necessária a monitorização do perfil lipídico, já que o tratamento será contínuo. O que deve ser repetido são as provas de função hepática e de CPK: no início, após 6 meses e sempre que a dose mudar ou forem associados fármacos que aumentem a toxicidade.
Posso associar genfibrozila à estatina em paciente com triglicerídeos altos?
Não. O protocolo é categórico: a genfibrozila nunca deve ser administrada concomitantemente ao uso de estatinas, pelo risco de rabdomiólise. Ela é indicada justamente para pacientes intolerantes ou refratários às estatinas.
Fontes
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