Corrimento vaginal: candidíase, vaginose e quando tratar a parceria
Resposta rápida
Na candidíase vulvovaginal e na vaginose bacteriana, o guia da Anvisa registra que as parcerias sexuais não precisam ser tratadas, exceto as sintomáticas. Na tricomoníase é o contrário: as parcerias devem sempre ser tratadas, preferencialmente com o mesmo esquema. O esquema preferido da vaginose é metronidazol 500 mg VO 12/12h por 7 dias, e o da tricomoníase é metronidazol 2 g VO em dose única.
Três causas de corrimento vaginal, três aspectos diferentes — e, o que mais confunde na consulta, três condutas diferentes quanto à parceria sexual. O guia da Anvisa para a APS separa as três com clareza.
Antes disso, o que a anamnese precisa cobrir: comportamentos e práticas sexuais, data da última menstruação, práticas de higiene vaginal, uso de medicamentos tópicos ou sistêmicos e uso de outros possíveis agentes irritantes locais.
Candidíase vulvovaginal
Quadro: prurido, ardência, corrimento geralmente grumoso e sem odor, dispareunia de introito vaginal e disúria externa. É comum durante a gestação, podendo haver recidivas pelas condições de pH vaginal que se estabelecem nesse período.
Tratamento: miconazol creme (20 mg/g), um aplicador cheio, à noite, por 7 dias. Como opção, fluconazol 150 mg, 1 comprimido VO em dose única, ou itraconazol 100 mg, 2 comprimidos VO 12/12h por 1 dia.
Atenção: em gestantes e lactantes, o tratamento é somente por via vaginal — o tratamento oral está contraindicado.
Parceria: não precisa ser tratada, exceto se sintomática.
Vaginose bacteriana
Quadro: corrimento homogêneo, de intensidade variável, coloração esbranquiçada, branco-acinzentada ou amarelada, com odor vaginal fétido — "odor de peixe" ou amoniacal — que piora com o intercurso sexual desprotegido e durante a menstruação.
Tratamento: metronidazol 500 mg VO 12/12h por 7 dias — esquema preferido. Ou metronidazol gel vaginal (100 mg/g), um aplicador cheio por via vaginal por 5 dias, opção que inclui gestantes e lactantes. Como alternativa, clindamicina 300 mg VO 12/12h por 7 dias.
Parceria: não precisa ser tratada, exceto se sintomática.
Tricomoníase
Quadro: corrimento vaginal intenso, amarelo-esverdeado, por vezes acinzentado, bolhoso e espumoso, acompanhado de odor fétido — na maioria dos casos lembrando peixe — e prurido eventual, que pode constituir reação alérgica à afecção. Em caso de inflamação intensa, o corrimento aumenta e pode haver sinusiorragia e dispareunia. Também podem ocorrer edema vulvar e sintomas urinários, como disúria.
Tratamento: metronidazol 250 mg, 8 comprimidos VO em dose única — dose total de 2 g, esquema que inclui gestantes e lactantes. Ou metronidazol 500 mg VO 12/12h por 7 dias.
Parceria: devem sempre ser tratadas, e preferencialmente com o mesmo esquema terapêutico.
É aqui que a consulta costuma errar: a mesma queixa, o mesmo metronidazol — e regras opostas quanto ao parceiro. Vaginose não é IST; tricomoníase é.
Um resumo para a beira da mesa
- Sem odor, grumoso, com prurido intenso → candidíase. Tópico; na gestante, só tópico. Parceria só se sintomática.
- Odor de peixe que piora após o sexo e na menstruação → vaginose. Metronidazol 7 dias. Parceria só se sintomática.
- Amarelo-esverdeado, bolhoso, espumoso → tricomoníase. Metronidazol 2 g dose única. Parceria sempre.
Na consulta
O Guia da UBS e o Guia de Condutas UBS trazem o quadro clínico e o esquema lado a lado, com a conduta da parceria explícita em cada um.
Para conferir o esquema antes de prescrever, o Antibióticos de Bolso organiza o antimicrobiano por infecção, com dose, via, intervalo, duração e as alternativas na alergia à penicilina.
Perguntas frequentes
Preciso tratar o parceiro em todo corrimento vaginal?
Não. Na candidíase vulvovaginal e na vaginose bacteriana, o guia registra que as parcerias sexuais não precisam ser tratadas, exceto as sintomáticas. Na tricomoníase, sim: as parcerias devem sempre ser tratadas, preferencialmente com o mesmo esquema terapêutico.
Gestante com candidíase pode tomar fluconazol?
Não. O guia traz a ressalva de que, em gestantes e lactantes, o tratamento da candidíase vulvovaginal é somente por via vaginal, e que o tratamento oral está contraindicado. Já na vaginose e na tricomoníase há esquemas que incluem gestantes e lactantes.
Fontes
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