Acesso venoso periférico: calibre, sítio e quando trocar
Resposta rápida
O caderno da Anvisa orienta selecionar o cateter de menor calibre e comprimento que atenda à terapia, porque calibres menores causam menos flebite mecânica e obstruem menos o fluxo sanguíneo. No adulto, as veias de escolha são as das superfícies dorsal e ventral dos antebraços, e as de membros inferiores não devem ser utilizadas a menos que absolutamente necessário. Rotineiramente, o cateter periférico não deve ser trocado em período inferior a 96 horas; em neonatais e pediátricos, não se troca por rotina.
O acesso venoso periférico é o procedimento mais repetido do plantão e um dos menos padronizados. O caderno da Anvisa sobre prevenção de infecção relacionada à assistência transforma isso em recomendações numeradas, com nível de evidência — e várias contrariam o hábito.
Escolher o cateter
A seleção se faz com base no objetivo pretendido, na duração da terapia, na viscosidade do fluido, nos componentes do fluido e nas condições do acesso venoso.
E a regra do calibre é o contrário do reflexo de plantão: devem ser selecionados cateteres de menor calibre e comprimento de cânula. O documento explica por quê — cateteres com menor calibre causam menos flebite mecânica, irritação da parede da veia pela cânula, e provocam menor obstrução do fluxo sanguíneo dentro do vaso. Bom fluxo, por sua vez, ajuda a distribuir os medicamentos e reduz o risco de flebite química.
O que não passa por periférico
- Infusão contínua de produtos vesicantes.
- Nutrição parenteral com mais de 10% de dextrose ou aditivos que resultem em osmolaridade final acima de 900 mOsm/L.
- Qualquer solução com osmolaridade acima de 900 mOsm/L.
Agulha de aço, por sua vez, só deve ser usada para coleta de amostra sanguínea e administração de medicamento em dose única — sem manter o dispositivo no sítio.
Onde puncionar
- Adultos: as veias de escolha são as das superfícies dorsal e ventral dos antebraços. As veias de membros inferiores não devem ser utilizadas, a menos que absolutamente necessário, pelo risco de embolias e tromboflebites.
- Pediatria: selecionar o vaso com maior probabilidade de durar toda a terapia prescrita, considerando veias da mão, do antebraço e do braço — evitando a área anticubital.
- Menores de 3 anos: podem ser consideradas as veias da cabeça; se a criança não caminha, as do pé.
- Considerar a preferência do paciente e preferir o membro não dominante.
- Evitar região de flexão, membros com feridas abertas ou infecção, veias já comprometidas por infiltração, flebite ou necrose, e áreas com extravasamento prévio.
- Em rede venosa difícil ou após tentativas sem sucesso, usar metodologia de visualização — esta com o nível de evidência mais alto do bloco.
Um novo cateter periférico deve ser utilizado a cada tentativa de punção no mesmo paciente. Repuncionar com o mesmo dispositivo não é economia: é recomendação contrariada.
Manutenção
- Flushing e aspiração para verificar retorno de sangue antes de cada infusão, e flushing antes de cada administração para evitar mistura de medicamentos incompatíveis.
- Usar cloreto de sódio 0,9% isento de conservantes. Não utilizar água estéril.
- Não usar soluções em grandes volumes — bags e frascos de soro — como fonte para obter solução de flushing.
- Avaliar permeabilidade com seringas de 10 mL, que geram baixa pressão no lúmen, e não forçar o flushing: havendo resistência, procurar a causa (clamps fechados, extensores dobrados).
- Usar técnica de pressão positiva — flushing, fechar o clamp, desconectar a seringa — e considerar o flushing pulsátil (push pause).
Avaliar o sítio
Inspeção visual e palpação sobre o curativo intacto, procurando rubor, edema e drenagem de secreção, valorizando queixas de dor e parestesia. A frequência ideal é a cada quatro horas, ou conforme a criticidade:
- Terapia intensiva, sedados ou com déficit cognitivo: a cada 1 a 2 horas.
- Pacientes pediátricos: no mínimo duas vezes por turno.
- Unidades de internação: uma vez por turno.
Quando remover
- A necessidade de permanência deve ser avaliada diariamente.
- Remover tão logo não haja medicamentos endovenosos prescritos e caso o cateter não tenha sido utilizado nas últimas 24 horas.
- Cateter instalado em emergência, com comprometimento da técnica asséptica, deve ser trocado tão logo quanto possível.
- Remover na suspeita de contaminação, complicação ou mau funcionamento.
- Rotineiramente, não trocar em período inferior a 96 horas. Estender esse prazo, ou trocar apenas quando clinicamente indicado, depende da adesão do serviço às boas práticas do documento.
- Em pacientes neonatais e pediátricos, não trocar o cateter rotineiramente — desde que as boas práticas estejam garantidas.
No plantão
O Guia da UPA traz os procedimentos à beira do leito na sequência em que acontecem, para conferir a técnica sem sair do atendimento.
Perguntas frequentes
De quanto em quanto tempo se troca o acesso venoso periférico?
Rotineiramente, não em período inferior a 96 horas. Estender a frequência de troca, ou trocar só quando clinicamente indicado, depende da adesão do serviço às boas práticas — avaliação frequente do paciente e do sítio, integridade da pele e do vaso, do dispositivo, da cobertura estéril e da estabilização. Em neonatais e pediátricos, não se troca por rotina.
Posso usar o mesmo cateter para uma segunda tentativa de punção?
Não. O documento é explícito: um novo cateter periférico deve ser utilizado a cada tentativa de punção no mesmo paciente.
Fontes
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